Nasci em Curvelo, Minas Gerais. Cresci, porém, em Belo Vale — uma pequena cidade do interior mineiro à beira do rio Paraopeba, onde passei os melhores anos da minha infância e adolescência. O sino da matriz marcava o meio-dia e as seis da tarde. O apito do trem chegava de longe, pontual como uma promessa. As crianças brincavam na praça até o escuro fechar. Foi ali que aprendi a olhar. Ali que aprendi a escutar. Belo Vale não é um lugar que se deixa para trás — é um lugar que se carrega por dentro. Carrego-o ainda hoje, mesmo depois de ter mudado de lá há algumas décadas já.
A linguagem chegou cedo. Não sei precisar quando — talvez sempre tenha estado ali, antes mesmo de ter nome. Mas foi em fevereiro de 1987, ao ingressar no Bacharelado em Tradução na Faculdade Newton Paiva, em Belo Horizonte, que escolhi formalmente esse caminho. Ao concluí-lo, em dezembro de 1991, sabia que as palavras seriam o fio condutor de tudo que viria.
A tradução me ensinou algo que nenhum outro campo poderia: que entre uma língua e outra existe um território imenso — feito de cultura, silêncio, intenção, nuance — que nenhum dicionário consegue abarcar completamente. Aprendi a habitar esse espaço intermediário. Aprendi a escutar o que não está dito.
Entre 1997 e 2000, atuei como revisor no Jornal Edição do Brasil, em BH, onde aprendi que a clareza é uma forma de respeito — e que a revisão, esse gesto de voltar, rever, ajustar, é parte essencial de qualquer trabalho com linguagem.
Em março de 2000, ingressei no Banco do Brasil. Mais de duas décadas depois, ainda estou aqui — não porque a vida corporativa tenha sido minha vocação primária, mas porque compreendi que o trabalho com pessoas e com o sentido das coisas não é privilégio de uma única profissão. O trabalho com linguagem. O trabalho com sentido. Sempre o mesmo fio.
Mas escrever sempre esteve ao lado. Silenciosamente. Pacientemente.
Em 2023 e 2024, essa obra ganhou um livro que não estava planejado. Uma internação por pneumonia, um achado inesperado nos exames, um diagnóstico — Timoma — e uma cirurgia, em 9 de abril de 2024, que me devolveu ao mundo com outros olhos. Desse percurso nasceu Fragmentos de Cura. Não um livro sobre doença. Um livro sobre corpo, apreensões, espera, cuidado, fragilidade, presença e transformação.
Hoje me aproximo de uma transição que venho preparando há anos. Em 2027, pretendo encerrar minha trajetória corporativa e dedicar mais tempo ao que sempre cultivei com cuidado: a escrita, a tradução, os livros — e a vida com menos urgência. Há um veleiro nesse horizonte. Uma casa de campo. Mais tempo para o silêncio. E as palavras que ainda não encontraram forma.