Escritor · Tradutor · Ensaísta

Vanderlei de Moura
Damasceno

Escrevo sobre aquilo que permanece quando o tempo passa:
memória, ausência, corpo, afetos, perdas, encontros
e as pequenas transformações da vida cotidiana.
Por que escrevo

Não escrevo para ensinar.
Não escrevo para concluir demais.
Escrevo para olhar melhor.
Para compreender um pouco mais.
Ou apenas para acompanhar o pensamento enquanto ele ainda está se formando.

Escrevo porque há coisas que só existem depois que encontram palavras.
Porque a memória, sem linguagem, some.
Porque o tempo passa — e a escrita é uma das poucas formas de fazer com que algo permaneça.

Escrevo para quem lê com atenção.
Para quem sabe que uma frase pode mudar o dia.
Para quem já ficou parado diante de um parágrafo, sem conseguir seguir em frente, porque aquilo era verdadeiro demais.

Escrevo porque não sei fazer de outra forma.

Vanderlei de Moura Damasceno
Sobre o autor

Uma vida
em travessia

Nasci em Curvelo, Minas Gerais. Cresci, porém, em Belo Vale — uma pequena cidade do interior mineiro à beira do rio Paraopeba, onde passei os melhores anos da minha infância e adolescência. O sino da matriz marcava o meio-dia e as seis da tarde. O apito do trem chegava de longe, pontual como uma promessa. As crianças brincavam na praça até o escuro fechar. Foi ali que aprendi a olhar. Ali que aprendi a escutar. Belo Vale não é um lugar que se deixa para trás — é um lugar que se carrega por dentro. Carrego-o ainda hoje, mesmo depois de ter mudado de lá há algumas décadas já.

A linguagem chegou cedo. Não sei precisar quando — talvez sempre tenha estado ali, antes mesmo de ter nome. Mas foi em fevereiro de 1987, ao ingressar no Bacharelado em Tradução na Faculdade Newton Paiva, em Belo Horizonte, que escolhi formalmente esse caminho. Ao concluí-lo, em dezembro de 1991, sabia que as palavras seriam o fio condutor de tudo que viria.

A tradução me ensinou algo que nenhum outro campo poderia: que entre uma língua e outra existe um território imenso — feito de cultura, silêncio, intenção, nuance — que nenhum dicionário consegue abarcar completamente. Aprendi a habitar esse espaço intermediário. Aprendi a escutar o que não está dito.

Entre 1997 e 2000, atuei como revisor no Jornal Edição do Brasil, em BH, onde aprendi que a clareza é uma forma de respeito — e que a revisão, esse gesto de voltar, rever, ajustar, é parte essencial de qualquer trabalho com linguagem.

Em março de 2000, ingressei no Banco do Brasil. Mais de duas décadas depois, ainda estou aqui — não porque a vida corporativa tenha sido minha vocação primária, mas porque compreendi que o trabalho com pessoas e com o sentido das coisas não é privilégio de uma única profissão. O trabalho com linguagem. O trabalho com sentido. Sempre o mesmo fio.

Mas escrever sempre esteve ao lado. Silenciosamente. Pacientemente.

Em 2023 e 2024, essa obra ganhou um livro que não estava planejado. Uma internação por pneumonia, um achado inesperado nos exames, um diagnóstico — Timoma — e uma cirurgia, em 9 de abril de 2024, que me devolveu ao mundo com outros olhos. Desse percurso nasceu Fragmentos de Cura. Não um livro sobre doença. Um livro sobre corpo, apreensões, espera, cuidado, fragilidade, presença e transformação.

Hoje me aproximo de uma transição que venho preparando há anos. Em 2027, pretendo encerrar minha trajetória corporativa e dedicar mais tempo ao que sempre cultivei com cuidado: a escrita, a tradução, os livros — e a vida com menos urgência. Há um veleiro nesse horizonte. Uma casa de campo. Mais tempo para o silêncio. E as palavras que ainda não encontraram forma.

Próximo livro

Fragmentos
de Cura

No final de 2023, durante os preparativos de uma festa de Natal, derrubei uma árvore numa chácara. Dias depois, um exame trouxe um achado inesperado. Meses depois, uma cirurgia. E um livro que não estava planejado.

Fragmentos de Cura não nasceu de uma ideia — nasceu de uma interrupção.

Não é um livro sobre doença. É um livro sobre corpo, espera, medo, cuidado, fragilidade e aquilo que permanece em nós depois que tudo parece ter mudado.

A revisão de conteúdo está concluída. Falta apenas a etapa técnica final antes da publicação.

Ler fragmento inédito
Também publicado

Anelos de um Neófito

O livro de estreia — de buscas, anseios e do aprendizado que não termina. A segunda edição, revista e ampliada, em preparação editorial.

Um livro de buscas e anseios. De quem ainda está aprendendo a ser — e que vai compreendendo, com o tempo, que o aprendizado nunca termina realmente. A segunda edição, revista e ampliada, em preparação editorial.

Além dos livros publicados, outros manuscritos existem — cada um no seu tempo.
Coração dos Outros · Serendipidade · Máscaras · Os Três Rios e a Lâmpada · Contas da Alma · Endereços etc. Quem sabe em uma coleção chamada O que penso que aprendi sobre…

Acompanhar a obra
Diário · Textos · Fragmentos

Caderno aberto

Reflexões, crônicas, fragmentos inéditos e pensamentos sobre tempo, escrita, memória e vida.

Fragmentos de Cura · Fragmento 1 Natal de 2023

A árvore e a festa

Naquele momento, lembrei-me das inúmeras árvores presentes em minha infância: o pé de laranja do quintal de casa, em cujos galhos eu ficava dependurado pelos dedos do pé. As mangueiras onde eu e meus amigos saltávamos de uma para outra, com a coragem própria de toda criança criada livre. O pé de laranja-da-terra do quintal da Vovó da Vila, em que eu subia a pedido dela para colher os frutos.

Ouvi dizer que há uma árvore que nasceu no mesmo dia e horário em que nascemos. Ela teria crescido conosco, em silêncio, testemunhando nossos ciclos. Eu esperava, sinceramente, que aquela não fosse a minha.

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Anelos de um Neófito · Prólogo 22 de maio de 2013

Visita a Manoel de Barros

22 de maio de 2013. Toquei a campainha da casa de Manoel de Barros e a empregada atendeu, desconfiada. Passados alguns minutos, o portão se abriu. A sensação que tive foi que se abria para mim uma passagem secreta, que conduzia a uma fonte inesgotável de poesia. Fui recebido por d. Stella Barros — 91 anos, memória inteira e sorriso honesto como só os que passaram pelos anos possuem: "Entre, Sr. Vanderlei. Não repare, pois o senhor está entrando em uma casa que só tem velhos." Ao final, ela leu o poema que eu havia escrito em homenagem a Manoel. "Muito bonito seu poema. Gostei." Ganhei meu dia, minha tarde, minha noite.

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Fragmentos de Cura · Véspera da cirurgia Abril de 2024

A solidão do homem acompanhado

Aquela noite, em casa, parecia trazer um silêncio diferente de todos os outros. Um silêncio que não era ausência de som, mas uma presença densa, que se acumulava nos cantos do quarto e emprestava um peso estranho ao tique-taque do relógio. Ao meu lado, sob o mesmo lençol, minha esposa dormia. A respiração dela soava como um hino a uma paz que, para mim, parecia pertencer a um outro momento. Perguntei a mim mesmo: que direito tenho eu de abrigar em meu peito uma tempestade ao lado daquela calmaria? Entendi ali a solidão mais absoluta que se pode conhecer: a solidão de um homem acompanhado.

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Anelos de um Neófito · Poesia

Despertar

Intriguei-me por ver, tantas vezes,
meus óculos caírem no chão.
Até que, enfim,
ergui a cabeça
e pude ver
além do que me mostrava a calçada.

Ler em Anelos de um Neófito
Cartas do Neófito · Série no Substack

Fragmentos de Fragmentos de Cura em publicação semanal — a travessia narrada em primeira pessoa, do diagnóstico à decisão.

Avulsos

Fora dos livros

Textos breves, notas de percurso e escritos ao longo do caminho — reflexões que escrevi e que não fazem parte de nenhum livro (ainda).

Tempo · Poesia

…o tempo anda.
O relógio para.
O tempo fala.
O relógio cala.
O tempo expande.
O relógio esconde.
O tempo apressa.
O relógio expressa.
O tempo muda.
O relógio mede.
O tempo…

Palavras · Silêncio

…só costumo falar sobre o que sei; por isto ando meio calado.

DATA
Viagem · Olhar

…sempre achei estranho tanta gente que viaja o mundo inteiro e volta do mesmo tamanho. E não falo em ganho de peso, heim…

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